APRESENTAÇÃO

Esse é um blog que acompanha o desenvolvimento do projeto “Convite à Inquietação”, um documentário que tem como ponto de partida o fortalecimento da relação entre uma filha e seu pai. Nos textos abaixo você encontrará as reflexões que deram impulso para a produção do filme.  

Atualmente o filme está em fase de término de filmagens e início de montagem. 

O projeto foi, até então, realizado com recursos da própria realizadora e com a ajuda de colaboradores no CATARSE. Este é o vídeo promo da campanha de arrecadação, para acessar o site CLIQUE AQUI 

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe" OSCAR WILDE

"Viver", pra mim, significa passar por experiências relevantes, das quais você sai diferente de como entrou. 

Para viver essas experiências não basta estar em um tempo e lugar. A influência do que está acontecendo deve chegar até à sua corrente sangüínea. 

Sempre fui uma pessoa de topar desafios. Dentro, logicamente, dos limites de sobrevivência. Ainda acredito que há coisas pelas quais vale a pena morrer e outras que vão ter que esperar outra reencarnação para se tornarem prioridade. 

Este é um projeto de documentário e um dos maiores desafios em que já me coloquei: a investigação de uma parte da minha história que sempre chegou até mim sutilmente pela tangente e que se tornou uma espécie de ficção baseada em fatos reais.

(continua)

O meu pai morreu quando eu tinha quase 5 anos e sinto que eu fui a única pessoa à quem foi privado um contato real  - imediato, contínuo, cotidiano. Ao mesmo tempo ele é muito presente na minha vida, pois quanto mais investigo mais descubro o quanto somos parecidos. Assim sendo, a inquietação partiu daí: Não me era mais suficiente saber dele por comentários isolados, vídeos de VHS e histórias individuais romantizadas.

No ano passado (2013) eu reclamava constantemente da falta que me fazia não estar apaixonada, não necessariamente por alguém, mas também por algo, e isso também se dava por ter ficado um bom tempo sem fazer nenhum projeto meu. Quando essa ideia surgiu senti um frio na barriga e foi o primeiro indício de que eu estava no caminho certo. Ao mesmo tempo o meu estágio atual de maturidade me deu um sinal verde: não só eu seria capaz de realizar essa busca, mas também precisaria disso para avançar algumas casas. Hoje, após boa parte das filmagens, gosto de perceber quantas portas esse tema abriu para outras discussões que vão além do vazio de perder alguém. 

O meu processo de descondicionamento do olhar foi e ainda é baseado em uma pesquisa que tem como ferramentas entrevistas formais e informais, comparação de depoimentos, análise de material de arquivo, auto análise, etc. Não procuro uma resposta fechada ou certeza absoluta, mas sei que certamente passei a criar uma relação mais honesta com essa pessoa que não conheci e com minha própria história. 

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Come to the dark side. We have cookies :)

Durante o projeto fui muitas vezes questionada sobre o motivo de cutucar uma ferida e reviver a morte, o que me fez analisar todo o meu repertório e currículo pessoal. A temática dita “fúnebre” ou “obscura” sempre foi matéria-prima para todas as minhas manifestações artísticas. Podemos dizer que aceitei a escuridão como parceira de trabalho ao invés de lutar contra ela, e assim temos criado algumas coisas juntas. 

Desde pequena minhas visitas ao cemitério foram constantes. No início era para visitar meu pai, ou seja, algumas pessoas tem pais separados e passam o final de semana alternando em qual casa ficar, enquanto eu passava o dia dos pais me relacionando com um túmulo. Não tinha como isso se tornar algo ruim: essa era a casa do meu pai, alguém que eu amo e me faz bem, assim sendo esse lugar não podia ser um lugar só de tristeza.

A relação cotidiana com o cemitério começou na infância e passou para a adolescência. Nessa época, quando há a enorme necessidade de pertencer a um grupo, me “encontrei” em uma tribo: os góticos. Foi tão óbvia a minha identificação, que ela se juntou à necessidade de aceitação e não se largaram mais. 

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Para quem me conhece atualmente as imagens acima parecem não ter qualquer relação comigo mas era essa a minha imagem externa para o mundo durante um bom tempo. Roupas pretas, piercings, músicas e filmes que relatavam a dor e o sofrimento se tornaram parte da minha personalidade entre os 13 e os 20 anos de idade. 

O tempo passou, ainda bem, e essa essência dark foi se adaptando.

A morte do meu pai foi a primeira de muitas que passei depois. Muitos parentes, animais de estimação e mortes seguidas no período de 1 ano que me deixaram com a sensação de que eu estaria em um velório de 3 em 3 meses. Uma das consequências disso foi a criação de um hábito esquisitíssimo: verificar se as pessoas estão respirando quando dormem, you know… just checking.

Essas mortes são as que eu chamo de influência direta: me afetaram de forma prática e mudaram meu dia a dia. Além dessas, houveram aquelas em que meu papel era de figurante, mas que geraram algum tipo de nova percepção sobre o fim. 

A morte física, assim como a consciência de que tudo termina, foram aprendizados desse processo, e me fazem lidar um pouco melhor com o assunto. Por outro lado, observar àqueles que ficam me proporcionou conviver com seres humanos em seus momentos de maior fragilidade. Creio que uma das cenas mais tristes que já vi foi a reação da minha avó por parte de mãe quando soube que o filho morreu; hoje em dia percebo que não tem como estar presente nessa cena e algo não mudar dentro de você. 

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No caso do meu pai, é impressionante a importância que este homem teve na vida das pessoas, o que me deixa p*ta de não ter passado mais tempo com ele. O Direito Penal perdeu um apaixonado pela profissão; minha mãe perdeu seu grande amor; eu perdi contato com meus irmãos mais velhos por parte de pai; e seus amigos perderam um membro insubstituível da gangue, para o qual fazem homenagens públicas até hoje, mais 20 anos depois. 

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Arthur Rodrigues Tramujas Neto era promotor de justiça de Curitiba no Paraná e, de acordo com meu irmão, um dos maiores criminalistas do país. Dizem que era apaixonado por direito e filosofia, defensor da cultura sulista, mas também um típico boêmio, contador de piadas, carismático e centro das atenções quando cantava jazz nas mesmas rodas que Dante Mendonça, Manoel Carlos Karam, Millôr Fernandes, Rafael Greca, Jaime Lerner e Paulo Leminski. 

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Arthur Tramujas cantando “Summertime”. Clique e ouça!

“Só uma crise de mau-humor nos céus pode justificar por lá o súbito desejo de levar o Tramujas”, resumiu bem um dos jornais de fevereiro de 1992. 

Na volta de uma viagem a trabalho um caminhão jogou seu carro para fora de uma ponte, o fazendo cair em um rio. Pessoas que estavam no local contam que ele conseguiu quebrar a porta do carro e ajudar os outros passageiros, porém, era ele quem dirigia e foi o único a falecer por conta do impacto do volante em seu peito. 

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"Está morto: podemos elogiá-lo à vontade." MACHADO DE ASSIS

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(cena do filme)

Sinto que todos que conviveram com ele tem uma certa sensação de posse sobre sua persona e sendo assim me senti no direito de reivindicar a minha parte do território do meu jeito. O objetivo desse documentário sempre foi me aproximar do meu pai para podermos criar a nossa cumplicidade, sem comprometer nem mudar a relação de terceiros com ele. Acredito que a relação entre duas pessoas é sempre única e muda completamente quando um dos personagens é alterado. Este filme é uma história de amor. É uma busca por poder amar alguém pelo “real” e não pelo idealizado, desmistificando sua falta de defeitos ou aceitando como verdadeiras algumas de suas façanhas. Defendo que somos seres plurais e para mim é mais difícil reconhecer qualidades do que me apropriar dos erros. Porém, ambos andam juntos, e assim como a felicidade, a tristeza tem momentos, fases e benefícios.  

Seguindo esta premissa me atrevi a entrevistar seus amigos, parentes que não conhecia, ex colegas de trabalho com altos cargos no Ministério Público, incluindo os outros passageiros presentes no acidente e políticos; visitei a praça que leva seu nome, o local onde foi velado o corpo, a casa de praia que frequentava, a ponte fatal, entre outros lugares, cada um com uma observação a acrescentar ou uma pergunta nova a levantar. A conclusão de toda esta jornada ainda está por vir pelos recortes da edição, mas algo durante as filmagens me fez sentir feliz e segura com o projeto: o carinho com que eu e minha equipe fomos recebidos por cada pessoa e local que passamos.

(continua)

Gosto de ressaltar que desde o início e confesso que até hoje, meu principal questionamento quanto ao projeto foi “Ok, mas quem vai se interessar por isso? Todos temos histórias, por quê a minha deve ser contada?”. Em busca de referências de documentários em primeira pessoa encontrei a minha principal inspiração no filme "Stories We Tell" de Sarah Polley pois desde o seu título a diretora já coloca as cartas na mesa deixando claro que está interessada em como contamos as nossas histórias, uns para os outros, para nós mesmos ou para um público. Seja de forma ficcional ou documental, contamos histórias desde sempre, e por mais egocêntrico e narcisista que seja, sabemos o quão reconfortante é nos identificar com uma delas ou conseguir abrir novas portas para quem as ouve. 

Me uso nesse filme como cobaia, como já fiz nessa capa de revista acima e em coerência com uma teoria que acredito: só conhecemos alguém ou nos conhecemos quando tomamos decisões com as quais temos algo a perder, ou quando nada mais restou e não há mais o que ganhar. Um dos meus filmes favoritos e que levo quase que como um livro de ensinamentos é “Clube da Luta” de David Fincher, algumas frases do filme são um tapa na cara, mas se as ouvirmos deixando de lado o mimimi, percebemos que elas são tão óbvias e realistas, que nos fazem dar mais valor à vida. (fui poética agora, mas é verdade…).

"Only after you lost everything that you are free to do anything."

Tylen Durden

"This is your life and it’s ending one minute at a time."

Narrador

Desde pequena eu gostava de ficar em frente às câmeras, tentei seguir a carreira de atriz mas não deu muito certo. A escolha pela parte de produção de cinema foi inclusive uma fuga dessa tendência ao auto-centrismo, mas completamente inútil, pois cá estou eu novamente falando de mim. Na verdade eu nunca deixei de falar de mim, em todos os meus roteiros lá estava eu, e quando fiz vários filmes que não tinham nada a ver comigo e me tornei uma formiga operária senti um vazio enorme, só acalmado pela 1 hora semanal de terapia. Posso e vou colocar a culpa na minha mãe, artista plástica e que me incentivou a me expressar, quero e espero poder dividir a culpa com o meu pai, e por fim, ter coragem de admitir o que é somente meu. 

No final das contas nós não vemos a vida como ela é, nós vemos a vida como nós somos. Porém, há de se dar um crédito ao testemunho das pessoas e aos seus sentimentos, pois junto a isso construímos o que cremos ser a realidade. A entrevista que fiz com minha madrinha Marilia foi a mais significativa e provavelmente será o grande fio condutor da narrativa do filme pois contém um um fato que exemplifica esta minha teoria: No meu aniversário de 18 anos ganhei um caderno onde ela escreveu todas suas recordações referentes a mim e foi ali que vi escrito pela primeira vez algo que eu sempre acreditava ter sido uma criação da minha cabeça de aspirante a cineasta, algo que eu guardava como uma lembrança inventada mas que se revelou uma memória real. 

(imagem abaixo)

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( no enterro ela ficou perto o tempo todo. A Pris me pediu que saisse quando o caixão foi fechado. Ela me deu a mão e foi saindo mas quando chegamos perto da porta ela quebrou o silêncio e gritou “eu preciso ver o meu pai!” Foi conduzida de colo a colo sobre a cabeça dos magistrados, parentes e amigos até voltar ao colo da mãe. Que menina! Enfrentou a perda com forças de adulto, diferente dos irmão já pré-adolescentes )

(continua)

Os primeiros rabiscos sobre o projeto surgiram em setembro de 2013. Em novembro eu já estava de mala feita em Curitiba, deixando São Paulo para trás afim de fazer acontecer este filme. 

Aproveitando essa oportunidade, cabe aqui uma apresentação formal:

Eu sou a Virginia, tenho 27 anos, sou de Curitiba, onde agora também resido. Quando fui para a terra da garoa com 20 anos tinha acabado de morar um ano em Nova York estudando atuação para filme e teatro, isso depois de ter tentado ter uma banda, cursado um ano de direito, feito aula de piano, tango, canto, etc. No meio disso tudo encontrei uma paixão bem grande pela sétima arte. Me formei no curso técnico Filmworks da Academia Internacional de Cinema, e em Cinema e Roteiro na Universidade Anhembi Morumbi. Durante esses seis anos na cidade grande participei de diversos curtas-metragem, séries de tv e longas, geralmente no departamento de Direção, que inclui Assistência de Direção e Produção de Elenco. 

Esse é o meu primeiro documentário e o primeiro filme meu no Paraná, mas eu já fiz alguns outros projetos que podem dizer um pouco sobre a minha “carreira” de diretora:

Gota de Ouro - Curta-Metragem de TCC da Academia Internacional de Cinema, o qual escrevi e dirigi.

Mini-Doc Casa Bombril - Um institucional em forma de documentário sobre o projeto Casa Bombril, o qual dirigi e roterizei

Clip “Not Far Enough” - Clip da banda Watch Out for The Hounds, realizado logo após o doc. Roteiro meu, e direção dividida com o Raphael Borgui. 

Entre outros que você encontra AQUI ou que posso falar melhor por e-mail: virginiadferrante@gmail.com

Ao voltar para minha cidade natal, não conhecia ninguém do meio cinematográfico, afinal quando saí daqui eu era outra pessoa, com outros sonhos e convívios. Foi usando o facebook como classificados e alguns contatos de amigos que consegui juntar uma equipe reduzida mas que acreditou no projeto e me ajudou a fazer acontecer. Assim como todo documentário o roteiro foi um mapa de produção, com o qual sabíamos qual o caminho seguir e o que buscar, mas não exatamente o que iríamos encontrar. 

Agradeço imensamente aos que toparam vir comigo nesse passeio no escuro e que mesmo sem ganhar cachê acreditaram no potencial dessa investigação:

Paulo Serpa, querido amigo de São Paulo, produtor executivo. Diego Carvalho Sá, irmão de alma e meu assistente de direção. André Osna, amigo de longa data, atual namorado <3 que esteve ao meu lado ajudando psicologicamente e também na produção. Rafael Alves e Vinicius Lima, da 2C Filmes, que produziram comigo o filme sem nem me conhecer. Gabriel Montechiari que ouviu pacientemente as longas entrevistas e desabafos meus através de um microfone. Ana Larousse, que além de ajudar nas filmagens é também a Diretora Musical do projeto. Vinnicius Gennaro, futuro parceiro de idéias. Leda Gambús e Guilherme Klock que ajudaram na produção. Carol Narchi que deu apoio jurídico, coisa que é mais que necessária quando tratamos de histórias reais. Marina Duarte, amiga querida que entrou depois das filmagens pra por ordem em toda a confusão. Caetano Grippo que agora se prepara para a imersão nesse mundo e vai fazer a montagem do filme. E, por último, e mais importante Priscila Tramujas, minha mãe que aceitou essa volta ao passado dolorida e também colocou a mão na massa.

Continuo em busca de profissionais, parceiros e apoios para a finalização do filme, assim como tenho desenvolvido projetos para aprovação em editais que me façam conseguir terminar o projeto decentemente, pagar quem trabalhou nele e principalmente que promovam que o filme seja exibido.  

Paralelamente a isso estou montando um local de trabalho aberto a diversas áreas da arte e que, espero, sirva de incentivo e inspiração para artistas independentes. O lugar, ainda em processo de maturação, é a Casa#B  e é com ela que fecho essa apresentação e volto a agradecer à equipe e todos que colaboraram financeiramente com o projeto. 

Obrigada!

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