APRESENTAÇÃO

Esse é um blog que acompanhará o desenvolvimento do projeto “Inquietação”. O projeto é um filme de curta-metragem de gênero documental com um tema pessoal: uma relação entre pai e filha. 

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"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe" OSCAR WILDE

"Viver", pra mim, significa passar por experiências relevantes, das quais você sai diferente de como entrou. 

Para viver essas experiências não basta estar em um tempo e lugar. A influência do que está acontecendo deve chegar até à sua corrente sangüínea. 

Sempre fui uma pessoa de topar desafios. Dentro, logicamente, dos limites de sobrevivência. Ainda acredito que há coisas pelas quais vale a pena morrer, e outras que vão ter que esperar outra reencarnação para se tornarem prioridade. 

Esse é um projeto de documentário de curta-metragem e um dos maiores desafios em que já me coloquei: a investigação de uma parte da minha história que sempre chegou até mim sutilmente pela tangente, e que se tornou uma espécie de ficção baseada em fatos reais.

O meu pai morreu quando eu tinha quase 5 anos, e sinto que eu fui a única pessoa à quem foi privado o contato real - imediato, contínuo, cotidiano. Ao mesmo tempo, ele é muito presente na minha vida, pois quanto mais investigo, mais descubro o quanto somos parecidos. Assim sendo, a inquietação parte daí: Não é mais suficiente para mim saber dele por comentários isolados, vídeos de VHS e histórias individuais romantizadas, além disso, sinto que esse é o momento de fazer esse filme.

Há algum tempo eu reclamava da falta de estar apaixonada, não necessariamente por alguém, mas também por algo, e fiquei um bom tempo sem fazer nenhum projeto meu. Quando essa ideia surgiu senti um frio na barriga e foi o primeiro indício de que eu estava no caminho certo. Ao mesmo tempo, o meu estágio atual de maturidade me deu um sinal verde: não só eu seria capaz de realizar essa busca, mas também preciso disso para avançar algumas casas. 

O meu processo de descondicionamento do olhar será baseado em uma pesquisa e terá como ferramenta entrevistas formais e informais, comparação de depoimentos, análise de material de arquivo, etc. Ao final não procuro uma resposta fechada ou certeza absoluta, mas sei que certamente criarei uma relação mais honesta com essa pessoa que não conheci. 

Come to the dark side. We have cookies :)

A temática dita “fúnebre” ou “obscura” sempre foi matéria-prima para todas as minhas manifestações artísticas. Podemos dizer que aceitei a escuridão como parceira de trabalho, ao invés de lutar contra ela, e assim temos criado alguma coisas juntas. 

Desde pequena, as visitas ao cemitério foram constantes. No início era para visitar meu pai, ou seja, algumas pessoas tem pais separados e passam o final de semana alternando em qual casa ficar, enquanto eu passava o dia dos pais me relacionando com um túmulo. Não tinha como isso se tornar algo ruim: essa era a casa do meu pai, alguém que eu amo e me faz bem, assim sendo esse lugar não podia ser um lugar só de tristeza.

A relação cotidiana com o cemitério começou na infância e passou para a adolescência. Nessa época, quando há a enorme necessidade de pertencer a um grupo, me “encontrei” em uma tribo: os góticos. Foi tão óbvia a minha identificação, que ela se juntou à necessidade de aceitação e não se largaram mais. 

Roupas pretas, piercings, músicas e filmes que relatavam a dor e o sofrimento se tornaram parte da minha personalidade. As reuniões da tribo eram no cemitério, com garrafas de um vinho doce horroroso, mas tudo bem, por que dava a sensação de estar bebendo sangue. O lugar mais calmo que eu encontrava para ler Álvares de Azevedo era sentada em uma lápide e o fato de eu ser muito branca e magra me colocava dentro da lista das meninas bonitas do grupo. Inclusive, as vezes brinco que a minha ida para essa tribo específica foi estratégica. Pensa comigo, com esse visual as minhas chances em um mundo cor de rosa, de loiras curitibanas, eram de -100 pra baixo na escala dos relacionamentos amorosos. 

O tempo passou, ainda bem, e essa essência dark foi se adaptando à idade.

A morte do meu pai foi a primeira de muitas que passei depois. Muitos parentes, animais de estimação e mortes seguidas no período de 1 ano que me deixaram com a sensação de que eu estaria em um velório de 3 em 3 meses. Uma das consequências disso foi a minha criação de um hábito esquisitíssimo de verificar se as pessoas estão respirando quando dormem, you know… just checking.

Essas mortes são as que eu chamo de influência direta: me afetaram de forma prática e mudaram meu dia a dia. Além dessas, houveram aquelas em que meu papel era de figurante, mas que geraram algum tipo de nova percepção sobre o fim. 

A morte física, assim como a consciência de que tudo termina, foram aprendizados desse processo, e me fazem lidar um pouco melhor com o assunto. Por outro lado, observar àqueles que ficaram me proporcionou conviver com seres humanos em seus momentos de maior fragilidade. Creio que uma das cenas mais tristes que já vi foi a reação da minha avó por parte de mãe quando soube que o filho morreu; não tem como estar presente nessa cena e algo não mudar dentro de você. 

No caso do meu pai, é impressionante a importância que este homem teve na vida das pessoas, o que me deixa p*ta de não ter passado mais tempo com ele. O Direito Penal perdeu um apaixonado pela profissão; minha mãe perdeu seu grande amor; eu perdi contato com meus irmãos mais velhos por parte de pai; e seus amigos perderam um membro insubstituível da gangue, para o qual fazem homenagens públicas até hoje, 20 anos depois. 

Arthur Rodrigues Tramujas Neto era promotor de justiça de Curitiba no Paraná e, de acordo com meu irmão, um dos maiores criminalistas do país. Dizem que era apaixonado por direito e filosofia, defensor da cultura sulista, mas também um típico boêmio, contador de piadas, carismático e centro das atenções quando cantava jazz. 

Arthur Tramujas cantando “Summertime”. Clique e ouça!

É curioso observar a reação das pessoas quando olham um dos meus irmãos: barbudo, alto, mesma cara do pai: “É a reencarnação do Tramujas” eles dizem, sempre muito emocionados . Um dos jornais da época resumiu o sentimento dos que o conheciam: “Só uma crise de mau-humor nos céus pode justificar por lá o súbito desejo de levar o Tramujas”. 

Na volta de uma viagem a trabalho um caminhão jogou seu carro para fora de uma ponte, o fazendo cair em um rio. Pessoas que estavam no local contam que ele conseguiu quebrar a porta do carro e ajudar os outros passageiros, porém, era ele quem dirigia e foi o único a falecer por conta do impacto do volante em seu peito. Em seu nome há uma praça em Curitiba, à qual só fui na inauguração, logo depois de sua morte. 

"Está morto: podemos elogiá-lo à vontade." MACHADO DE ASSIS

Sinto que todos que conviveram com ele tem uma certa sensação de posse sobre sua persona e sendo assim, venho por meio deste filme reivindicar a minha parte do território.

O objetivo desse documentário é me aproximar do meu pai para podermos criar a nossa cumplicidade, sem comprometer nem mudar a relação de terceiros com ele. Acredito que a relação entre duas pessoas é sempre única e muda completamente quando um dos personagens é alterado.

Este filme é uma história de amor. É uma busca por poder amar alguém pelo “real” e não pelo idealizado, desmistificando sua falta de defeitos ou aceitando como verdadeiras algumas de suas façanhas que ainda não consigo acreditar. Defendo que somos seres plurais e para mim é mais difícil reconhecer qualidades do que me apropriar dos erros. Porém, ambos andam juntos, e assim como a felicidade, a tristeza tem momentos, fases e benefícios.  

A Academia Internacional de Cinema em São Paulo foi a primeira escola de cinema que fiz, este vídeo acima é um dos primeiros exercícios que fazemos por lá chamado “Auto Retrato”. A proposta é que cada aluno grave um vídeo de 1 minutos sobre si. Em 2007 fiz o primeiro vídeo, um ano depois o renovei, também por proposta da escola, essa renovação é a que apresento para vocês, um… Auto Retrato Deluxe Version.

A primeira versão está disponível no meu vimeo.

Em busca de referências de documentários em primeira pessoa encontrei a minha principal inspiração no filme "Stories We Tell" de Sarah Polley. Desde o início Polley já coloca as cartas na mesa escolhendo uma cena em que sua irmã pergunta “Por que você está fazendo isso? Quem é que vai se interessar pela nossa família? Toda família tem alguma história”. O nome do filme responde, a diretora está interessada em como contamos as nossas histórias, uns para os outros, para nós mesmos ou para um público. Seja de forma ficcional ou documental, contamos histórias desde sempre, e por mais egocêntrico e narcisista que seja, sabemos o quão reconfortante é nos identificar com uma delas ou conseguir abrir novas portas para quem as ouve. 

Me uso nesse filme como cobaia, como já fiz nessa capa de revista acima e em coerência com uma teoria que acredito: só conhecemos alguém ou nos conhecemos quando tomamos decisões com as quais temos algo a perder, ou quando nada mais restou e não há mais o que ganhar. É estando no fundo do poço que você decide ter ética ou não, ser altruísta ou não, se dedicar ou não, desistir ou não. Um dos meus filmes favoritos e que levo quase que como um livro de ensinamentos é “Clube da Luta” de David Fincher, algumas frases do filme são um tapa na cara, mas se as ouvirmos deixando de lado o mimimi, percebemos que elas são tão óbvias e realistas, que nos fazem dar mais valor à vida. (fui poética agora, mas é verdade…).

"Only after you lost everything that you are free to do anything."

Tylen Durden

"This is your life and it’s ending one minute at a time."

Narrador

Desde pequena eu gostava de ficar em frente às câmeras, tentei seguir a carreira de atriz mas não deu muito certo. A escolha pela parte de produção de cinema foi inclusive uma fuga dessa tendência ao auto-centrismo, mas completamente inútil, pois cá estou eu novamente falando de mim. Na verdade eu nunca deixei de falar de mim, em todos os meus roteiros lá estava eu, e quando fiz vários filmes que não tinham nada a ver comigo e me tornei uma formiga operária senti um vazio enorme, só acalmado pela 1 hora semanal de terapia. Posso e vou colocar a culpa na minha mãe, artista plástica e que me incentivou a me expressar, quero e espero poder dividir a culpa com o meu pai, e por fim, ter coragem de admitir o que é somente meu. 

Em termos práticos, essa minha busca já tem alguns caminhos definidos, começando pelas pessoas. Sei do meu pai, em grande maioria, pela minha mãe, pessoa no mundo com quem tenho maior conexão, mas com quem vivi tantas outras coisas que essa parte do diálogo ficou em segundo plano. Meus dois irmãos são apenas por parte de pai e acabamos ficando distantes nunca tendo a oportunidade de falar de forma sincera sobre a perda do que tínhamos em comum. Fora do âmbito familiar, algumas pessoas são de imediata conexão ao tema como amigos do meu pai com quem convivi, os colegas de trabalho que estavam no carro do acidente, entre outros que surgirão durante o filme. Por intermédio da visão desses futuros entrevistados quero ligar pontinhos, intercalar informações e quem sabe formar novos nós, mas pelo menos esgotar o assunto; a não ser que uma grande revelação de novela mexicana surja, aí o curta vira um longa-metragem e é outra história.  

Nós não vemos a vida como ela é, nós vemos a vida como nós somos. Porém, há de se dar um crédito ao testemunho das pessoas e aos seus sentimentos. Se não fosse um caderno de memórias, dado pela minha madrinha Marilia quando eu fiz 18 anos, eu continuaria achando que a única lembrança que eu tinha do velório era uma criação da minha cabeça de aspirante à cineasta. Mas no final das contas, algo que eu nunca tinha falado para ninguém, estava ali, escrito por outra pessoa.

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